Abandonar-me, não posso

Abandonar-me, não posso.
Como parar de sonhar,
Se tenho o sonho na alma,
E apenas Sou porque sonho.
Ser, o que posso ser,
Senão matéria parida da metáfora?

O mundo sonhado comanda
Todo o viver.
Vivemos perseguindo
O que no nosso próprio mundo metafórico
Foi concebido.
O que existe, cada ser fez existir,
E existiu primeiro na metáfora de cada um.

E quando não o fazemos,
Abandonamo-nos.
Somos pinceladas sem rumo,
Mortas-vivas ou alienadas,
Conchas vazias, carapaças duras
Com demasiado espaço por ocupar.
A pior forma de viver é
Estar morto dentro de um corpo vivo,
Viver morto sabendo que mortos
Certamente um dia estaremos
E por agora não estamos.

Viver conformado com a ordem social das coisas,
E olhar no espelho aquilo que um dia sonhámos,
Passar a vida a observá-lo como uma miragem
Que vai desaparecendo,
Sumindo-se numa nuvem cinzenta…
Não.

Não me posso abandonar
Antes que a vida me abandone.
Porque não se pode morrer sem viver primeiro.

 

 

Metaforicamente e outros poemas

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