Passam pesados os dias

Passam pesados os dias, sobre as minhas ténues pálpebras se agitam, como patas de elefantes que esmagariam todo o meu globo ocular e seus nervos circundantes. Desistem as pálpebras, desmaiam e caiem, não vejo mais o mundo. No negrume que me resta põe-se o cérebro a desenhar imagens desse mundo, migalhas vadias que me sobram, desalinhadas, desconectadas. Esse cérebro só se desliga quando morre. Meu corpo inerte, parece ele morto, à primeira vista, de longe; finge esse desmaio que lhe é exigido no cessar de cada dia, na passagem do dia para o dia, em postura linear mantém-se, solidifica-se durante horas, extasiado. Reagir aos estímulos diários tem um preço: a recarga das baterias, o mudar das pilhas. A cabeça carrega uma colina que dela fez as suas raízes de sustento, e agora, pousada, assume a sua posição rígida na paisagem. É densa, a terra que me enterra a cabeça no túmulo dirigindo-se pouco a pouco para baixo da superfície, abruptamente se afunda, um mergulho interminável até às fossas do oceano.

Os dias amontoados sucessivamente comprimem-se, cansaço. Estar horas a fio com o corpo desperto culmina nessa fadiga incontrolável, que se repete e repete. Acordar e adormecer, acordar e adormecer, acordar e adormecer. Estou a meio de mais um fenómeno básico do que é viver. Todos os dias o corpo me pede o repouso, porque para viver é preciso descansar uma e outra e outra vez. Enquanto me cai a cabeça sem fisicamente cair para lado algum, o controlo evapora-se como água em ponto de ebulição. Com o corpo desistindo, anseio aquele momento quando não sou mais eu, vai-se a consciência, não tenho noção de mim. Mas no enclausurar da percepção visual, o cérebro ainda pensa e repensa. Sinto e sei que sinto. Ainda não durmo, penso no dormir. Podia contar carneiros, dizem, podia desafiar o cérebro, estimulá-lo até à sua exaustão, obrigá-lo a desistir, enganá-lo para se perder, para largar o controlo e o movimento, como os restantes membros por ele controlados, embora as armadilhas fossem pensadas por ele, poderia ele armadilhar-se assim?! É o comandante o último a desistir. Mas terá sempre de desistir, o barco está imóvel.

A vida será isto, ponho-me a pensar, será navegar inactivamente para que amanhã possa estar no activo, de novo. Viver pauta-se na actividade de meu ser, concluo. Mas neste instante vagarosos são os conteúdos que bóiam na minha cabeça, já não percebo imagens nem ideias. Difícil é pensar mais que isto, não agarro as ideias que não consigo gerar. Atropelam-se as palavras num trânsito impenetrável. Uma confusão que não entendo, o que é entender. Lento, e lento, e lento, vou e voltarei.

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