O Mar que me completa e atormenta

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Cresci com o imenso mar banhando os meus dias. O mar ilusionista que mistura verde e azul numa brincadeira mentirosa. Namora os limites da terra onde nasci beijando as praias douradas onde cedo pisei. Fascinada por aquele manto brilhante que se estendia infinitamente riscando o horizonte, guardei na língua o sabor da água salgada, a paixão pelos perfumes do oceano e o medo indesejável da escuridão das suas profundezas, da força destruidora da sua monstruosa massa. O mar, o tapete líquido brilhante, é impulsionador do sonho, inspirador da poesia, fornecedor da ciência. Só o mar pode reunir todas as maravilhas numa só, arte e ciência, imaginário e lógico. Esse mar fez-me navegar embalada pelas suas ondas e escrever-lhe poesias. Admirá-lo e desejá-lo. E não o posso ter. Não posso a ele pertencer. A minha atracção fez-me sonhar, tantas vezes, como seria se pudesse viver no mar. Deixar de ser uma entidade terrestre, por inevitável destino, e escolher ser habitante do mar. As crianças podem sonhar ser sereias, as princesas sereias que vivem no mundo encantado submarino que não existe. Com esta idade que tenho, já não posso sonhar ser sereia. Mas sonho conhecer o mar, vê-lo no seu íntimo. Perigo e beleza de mãos dadas.

Uma parte de mim sente-se como o Capitão Nemo, esse homem enigmático, genial e assustador, que se entregou ao mar e fez-se seu morador. Queria eu conhecer a natureza marítima que se estende abaixo do nível dos meus pés, onde eles não podem pisar, porque o mar não foi feito para ser pisado. Na minha cabeça viajei. Naveguei aquelas 20 mil léguas submarinas descritas por Aronnax, a bordo do formidável e indestrutível Nautilus, a máquina exageradamente perfeita e segura para tal viagem perigosíssima. Observei boquiaberta os mistérios desmistificados do oceano, as mil espécies que o chamam de casa, porque as chapas de cristal do Nautilus são como uma tela de cinema gigante, reproduzindo o mais real e fantástico filme já visto.

“O mar era indistintamente visível num raio de uma milha em volta do Nautilus. Que espectáculo! Que pena poderia descrevê-lo? Quem saberia pintar os efeitos da luz através daquelas lâminas transparentes e a suavidade das suas gradações sucessivas, até às camadas superiores e inferiores do oceano!” – Jules Verne

Pisei as florestas submarinas da Ilha Crespo, sim, a floresta submarina de arbustos verticais, para contrariar a natureza e pisar o fundo do mar, coisa que só o Capitão Nemo poderia tornar possível, essa loucura de pisar o mar profundo que não foi feito para ser pisado. Conheci o oceano Pacífico, Índico e Atlântico, vi o Mar Vermelho e passei o Túnel Arábico, passeei entre as ruínas da Atlântida e cheguei ao Pólo Sul.
Todavia, quando a paixão e a exacerbada estimulação da viagem encontra algum descanso, tenho consciência que, na verdade, sou o professor Aronnax. Tenho a admiração pela beleza e ciência do mar, pela genialidade de Nemo, mas vivo em conflito entre este fascínio e o regresso ao conforto do meu lar. Porque mesmo amando o mar, amo-o livremente, e aceito que a ele não pertenço, que terei de pisar terra por necessidade. Sou uma inevitabilidade terrestre. Um dia sairei do Nautilus mas ainda não o quero. Partilho esta hesitação com Aronnax, mesmo quando os companheiros planeiam a fuga em pleno Mar Mediterrâneo, um mar familiar. E tal não é esta semelhança que, quando os companheiros de Aronnax combinam fugir, o Nautilus viaja precisamente ao longo da costa portuguesa. Continuar no mar ou ir para casa, a minha terra firme? Quero a minha terra mas desejo não chegar lá ainda, porque não acabou a viagem.
É isto que os bons livros nos fazem. Desenterram os nossos desejos e sonhos mais intrínsecos e primitivos. Assim como o meu gosto pelo mar foi ressaltado pelas “Vinte Mil Léguas Submarinas (1870)” de Júlio Verne. Enlaçam-nos de tal forma nas suas entranhas que passamos a ser parte da história, a viver os acontecimentos, a sentir, pensar e agir. E tudo mentalmente, não fosse o nosso cérebro extraordinário. Mais extraordinário que o Nautilus, pois este depende do primeiro para existir.

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