O dia em que vi Steve Vai ao vivo

Havia chegado o dia. Aquele dia que estava escrito, numas letras frágeis, no pedaço de papel que comprei, simples papel com o seu valor, pelo menos para mim, e para muitos outros seres presentes numa Aula Magna que expirava calor humano por todos os poros. Nas minhas mãos, o tal papel servia-me como bilhete de entrada para poder ver um guitarrista executar a sua ginástica. Que guitarrista? “I’m Steve Vai“, como disse o próprio ao microfone, durante um dos mais belos e profissionais concertos que tive o prazer de assistir. Ainda permanecem pedaços desse momento nesta minha memória. Foi a apresentação do último e mais recente trabalho – “Story of Light” (2012) – do guitarrista, mas contou com a presença de outras músicas da sua carreira, além do profissionalismo, da tecnicidade musical, do teatro e do entretenimento em palco, tudo isto compondo um concerto completo, coeso e de elevado nível na subjectiva hierarquia imaginária dos concertos.

No dia anterior já tinha eu rondado a Aula Magna, admirando com os meus olhos bem abertos toda a maquinaria indispensável do músico, estacionada no sítio do futuro espectáculo. Carrinhas pretas enormes, emanavam respeito e reverência, pareciam contar todas as histórias e experiências da estrada, das viagens incessantes e da disseminação do rock instrumental pelos vários cantos do globo terrestre, pensando que um globo pode ter cantos sociais metafóricos, e não vértices, com certeza. O breve passeio levou-me a um sono descansado com miragens das terras que aquelas rodas robustas pisaram e do que trariam para a noite seguinte.

E essa noite chegou, finalmente, quando a lua brilhava no céu e a brisa transportava-me para o sítio onde queria estar. O estacionamento na Cidade Universitária estava cheio, anunciava uma Aula Magna com os seus lugares preenchidos. Assim foi. Consegui correr para dentro quando ouvi o primeiro riff de guitarra da noite, era a “Racing the World” do álbum mais recente. Seguiram-se outros com “Building the Church” ou “Tender Surrender”. Estava pela primeira vez num concerto de rock instrumental, perante um ambiente de amantes de música, especialmente guitarristas, que desejam ver possíveis os impossíveis malabarismos de Steve Vai na guitarra eléctrica. Desejos realizados. Steve Vai deixou bem claro aquilo de que é capaz. Deixou-nos num conflito emocional estranho, o sentimento de admiração e descontentamento, como um deus da guitarra tão poderoso que não poderemos alcançar. Vamos para casa motivados para tocar, praticar e estudar mais, ao mesmo tempo carregando a sensação de que somos tão mortais e tanto nos falta para ser um pouco como o deus.

Mas não assisti apenas a solos e malabarismos musicais da guitarra, que nos deixavam fixados na perícia do seu executante. Houve mais, muito mais. Lembro-me de momentos mais íntimos, quando Steve cantou “The Moon and I”, sobre a sua relação particular com a lua. Momento com o qual me identifiquei. Ou quando pudemos apreciar um belo solo de harpa por Deborah Henson-Conant. Quando no meio do jogo de luzes surge Steve com uma nova vestimenta, personalizando um Robot que invadia o palco, um teatro com pinceladas futuristas, fazendo-me lembrar as histórias de ficção científica e o Space Rock dos anos 70. E ainda a interacção com o público, sempre, desde comentários cómicos a conversas descontraídas incluindo os restantes músicos, também eles mestres no instrumento que seguravam. Não presenciei somente o rock instrumental de um guitarrista virtuoso, presenciei um espectáculo que aliou técnica e entretenimento em proporções harmonizadas.

Depois de um solo de bateria, deixando bem claro que todos os músicos em palco sabiam muito bem o que faziam, soou na sala da Aula Magna o riff da “For the Love of God”, uma das mais belas melodias alguma vez feitas na história do rock, finalizando o concerto com nota positiva. Ao fim de 3 horas fascinada, tinha chegado a hora de sair da nave perdida em algum planeta do universo e pôr os pés na realidade terrestre, levando comigo a memória do dia em que vi Steve Vai ao vivo.

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