The Book Thief e o poder da palavra

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Há pouco tempo, numa descansada noite de cinema, assisti “The Book Thief” (traduzido como A Rapariga que Roubava Livros) e percebi ao longo de 130 minutos que há muito tempo não via um filme realmente especial para mim. Apesar de ser mais uma história decorrida na época do nazismo da segunda guerra, gostei da mensagem central da trama – pelo menos a mensagem que retiro. Mas sou suspeita, porque gosto de dramas ocorridos durante a segunda guerra mundial (i.e. The Pianist, Schindler’s List) e este é mais um para se juntar à lista.

O filme, adaptação cinematográfica da obra literária de Markus Zusak, retrata a história de vida de uma menina de 9 anos, Liesel, adoptada por um casal alemão na segunda guerra mundial, enquanto ela cresce num contexto totalitário, dominado pela guerra, discriminação, medo e morte. Apesar do panorama ser qualificado pelos acontecimentos do nazismo, o foco é o desenvolvimento de Liesel, a curiosa rapariga analfabeta que aprende a ler, e é a leitura que lhe serve como guia na sua conceptualização do mundo. Não é mais um filme que nos apresenta os horrores e tragédias desta época, é um drama que nos mostra como foi viver nessa época para uma simples rapariga, filha de uma mãe comunista. Mais que isso, tem uma mensagem bonita, pelo menos eu assim interpreto, sobre o poder da palavra no mundo ignorante destituído de consciência.

No início do filme, a mãe de Liesel entrega a sua filha aos novos pais, um casal alemão. Pouco a pouco a menina familiariza-se com o casal, o bairro, os vizinhos e a escola. A partir daquele dia em que Liesel não sabia escrever o próprio nome no quadro da escola, ela desenvolve uma atracção pelos livros, um desejo insaciável de poder lê-los. Tem a cave da casa como o seu porto de abrigo, escrevendo num quadro todas as palavras que vai aprendendo à medida que lê livros com o pai. Um dos momentos inesquecíveis da história dá-se quando Liesel é obrigada a participar numa queima de livros, evento em que todas as crianças participavam exaltando hittler. Mas Liesel mostra-se angustiada ao ver toda a sabedoria escrita desfazer-se em cinzas. Quando todos vão embora, rouba um livro ao acaso e foge. Temos um momento com uma mensagem brilhante, porque alguém foi capaz de salvar uma réstia de Razão num mundo que a quer banir reduzindo-a a nada. Assim sabemos que ela é uma menina muito especial na terra dos horrores. Ali, roubar não é o verdadeiro crime, o maior crime é tentarem arrancar-lhes o pensamento.

Quando um judeu, Max, fica refugiado na casa dos seus pais adoptivos, Liesel faz um novo grande amigo, como um irmão que lhe faltava e volta para ela. Dedica-se a ele, mantém-o em segredo, preza a sua protecção, imagina formas de passarem o tempo. Quando ele adoece, rouba livros, ou tira-os emprestados, da biblioteca da senhora Ilsa, e lê-os enquanto ele se cura. A personagem é confrontada com os horrores do tempo em que vive e vê Max ir embora de casa, depois de curado, fugindo para outro sítio. Vê o pai do seu amigo Rudy e o seu próprio pai adoptivo serem enviados para a guerra. E no meio de toda a infelicidade, estão os livros, as histórias que ficam calcadas na sua memória. É por isso que temos outro momento marcante: vemos Liesel contar uma história, inventada por ela, quando está escondida com a mãe no refúgio perante as ameaças de bombas. É capaz de entreter e entusiasmar toda a gente escondida, fazê-los respirar sossego com o estrondo da guerra acima das suas cabeças.

Liesel é essa rapariga apaixonada por livros, capaz de pensar e imaginar, de ser construtiva num mundo a destruir-se. Esta é a rapariga com sede de conhecimento num mundo que a quer ignorante. É uma sobrevivente nas ruínas da sociedade, uma criança que cresceu entre queimadas de livros, exaltações ao führer, acusações de outros miúdos contra a sua mãe, judeus a procurarem refúgio, pais e crianças partirem para a guerra, corridas para os abrigos quando havia ameaças de ataques. São os livros a única coisa sã num mundo enlouquecido. E aquela que tirou um livro da fogueira após a queima, transformou-se numa escritora ao longo de toda a sua vida. Num mundo tão doente, os livros mantiveram a mente de Liesel mais saudável. Ler mantém a sanidade num mundo insano, este é o poder da palavra. São as palavras que não nos deixam parar de pensar, esquecer de nós e dos outros, refugiar dentro das entranhas, sujos e apagados no medo que nos entope.

Tudo isso foi cuidadosamente abordado num filme que, apesar de longo, não me cansou, e provocou-me esta sensação de identificação com a importância da realização e expressão pessoal através da escrita, muito provavelmente porque tenho uma Liesel em mim.

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