Uma espécie de texto que não pode ser lido

Blog Writings, Essay, Narrative

 

É estranho. Concebo-me apoiada nos meus joelhos, mirando o último sítio para onde foste. Estaria ali para fingir que falo contigo, para puder dizer tudo o que há a dizer sobre a tua importância em vida, para garantir que não és esquecida, mesmo que já não te possa abraçar ou tocar. Olhar para aquele lugar, saber que ali ficaste e não mais estás, recordar-te, serve-me só a mim, que queria continuar a falar-te, a ver-te. Então para quê ficar ali? O teu verdadeiro sítio agora é na memória daqueles que viveram contigo, os que te conheceram. À terra, todos pertencemos, não é o sítio de ninguém, mas o sítio de todos os seres. Podia ficar lá sentada, nessa tentativa desesperada e inútil de despedir-me de ti, mas não existem boas despedidas quando não nos queremos realmente despedir, somente somos obrigados a tal.

É estranho, existir é estranho. Tantos minutos de acontecimentos que se dissipam e deixam de ser, senão na memória de alguém. Memória a qual também desaparecerá. Não, não faz sentido falar-te, quando não me podes ouvir. Nem perceber. E nunca pudeste. Quer dizer, percebias à tua maneira. Deve ser essa necessidade tosca de falar-te que me leva a escrever-te, imagina-se, como se alguma vez pudesses ler. Isto é uma espécie de texto que não pode ser lido, um texto para ti que não podes ler.

Lembro-me da tua vida, essa que te largou, desde o dia em que te conheci, bem pequena ainda. Não saberia o quão feliz seria por essa tua curta vida ter-se cruzado com a minha. Era criança quando te vi, num passeio comum com os meus pais, e logo me apaixonei pela nuvem branca carinhosa e brincalhona que eras. Quis-te perto de mim e assim foi. Vieste para a nossa casa e tornaste-te da nossa família. Dormias muito naquela tua primeira cama, eras tremendamente esquisita com a comida e acima de tudo, gostavas de brincar. Uma vez estragaste-me um peluche branco, um pequeno cãozinho artificial parecido contigo. Lutaste com ele e venceste. Porque precisava eu dele se te tinha a ti? Passeámos muito juntas. Naquelas tardes de Primavera-Verão, depois da escola ou do lanche, saíamos juntas e percorríamos caminhos, a passos calmos ou correndo. Farejavas todos os lugares, discriminavas todos os pormenores. Ganhavas todas as corridas, jamais te consegui apanhar. Tanto corrias, de orelhas apontadas para trás, patas bem fletidas, como uma espécie de coelho extremamente veloz. Uma vez comprámos uma escova, penteámos-te muito e o teu pêlo transformou-se numa nuvem volumosa e felpuda, como um algodão doce. Eras vaidosa. Adoravas quando te penteava e te perfumava. Esperavas incessantemente sair à rua comigo, para mostrares o quão bela eras. Adoravas aninhar-te no nosso colo, longas foram as sestas feitas num conforto dedicado só a ti. À noite dormia descansada, aquecias-me os pés e quando acordava, sabia que estarias lá.

O tempo passa, viver mais e mais um dia é envelhecer. O teu coração deixou de bater com o vigor de antigamente. Deixaste de correr tão veloz. Mas quando te passeava, ainda desejavas correr, eras a mesma de antes sem puder ser exactamente a mesma. Depois deixaste de correr. O corpo que parecia igual, já não era igual, e não te permitia mais fazê-lo. Foste ficando em casa, na tua cama, a dormir, a descansar, a descansar de uma vida com pouca vitalidade, depender de medicamentos não é fácil. Comprámos tudo o que havia para ajudar o teu corpo, que começava a esquecer-se de funcionar para te manter presa à vida. Eu sabia e tu sabias que não aguentavas muito mais. Uma vez ficaste internada, tiveste cuidados médicos e pudeste voltar para casa. Como um aviso. Poucos meses depois, num dia como outro qualquer, viste o mundo pela última vez, enfim descansaste de uma vida cansativa que não podia durar muito mais. Já não passeavas, já não corrias, já não brincavas, mas eras aquela que sempre amei e esteve do meu lado enquanto fui criança. Vais continuar a ser tudo isso, na minha memória, até um dia me apagar como tu. Foste a minha amiga de infância, a minha melhor amiga. Não tive outra amizade como a tua, a felicidade que vivi na minha infância foi contigo que a partilhei. E que triste é ver-te partir, saber que a minha vida continua percorrendo novas fases sem que estejas lá.

Por esta altura, com os joelhos dormentes, levantar-me-ia. Imagino mais uma vez o teu último sítio. Para outro ser racional, apenas uma relva curta e verde, mas eu vejo-te a ti, sentada com o pêlo-nuvem volumoso agitado no ar. Viro-me e sigo, vou seguir sim, sem nunca te esquecer, garanto, minha primeira amiga de quatro patas.

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